Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
à margem de nós mesmos..."
(Fernando Pessoa)
Vivi a ilusão da liberdade, daquela liberdade sonhada
em que se pode ser casada e solteira
infantil e madura, morena e oxigenada
aquela liberdade atemporal em se pode fazer tudo
sem ser condenada
em que as leis são individuais, as faltas puras
vivi a ilusão de que poderia sobrevoar edifícios e
sorrir feito criança, que poderia satisfazer meu corpo
sem pagar preço alto e até mesmo nenhum
a liberdade que cheguei a experimentar me tirou de órbita
me fez perder peso, ganhar viço, acreditar
por uns instantes tive o gozo flutuante,
fui inocente e fui eu
eu fui eu por uns dias, eu fui eu por uns céus
fui ser quem eu era ao nascer, antes de ser educada,
resumida, adestrada, induzida, aplicada,
antes de ser abatida em pleno vôo.
(Martha Medeiros, do livro Cartas extraviadas e outros poemas)
"Meu amor independe do que me fazes.
Não cresce do que me dás.
Se fosse assim ele flutuaria ao saber dos teus gestos.
Teria razões e explicações.
Se um dia teus gestos de amante me
faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra.
Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no
eclipse.
Amor foge a dicionários e a regulamentos vários..
Amor não se troca..
Porque amor, é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..
Nada te devo..
Nada me deves..
Como a rosa que floresce porque floresce,
eu te amo porque te amo..
(Rubem Alves)
O que mais você quer?
Era uma festa familiar, dessas que reúnem tios primos, avós e alguns agregados ocasionais que ninguém conhece direito. Jogada no sofá, uma garota não estava lá muito sociável, a cara era de enterro. Quieta, olhava para a parede como se ali fosse encontrar a resposta para a pergunta que certamente martelava em sua cabeça:
o que estou fazendo aqui?
De soslaio, flagrei a mãe dela observando a cena, inconsolável ao mesmo tempo em que comentava com uma tia:
"olha pra essa menina, sempre com essa cara. Nunca está feliz.
Tem emprego, marido, filho.
O que ela pode querer mais?"
Nada é tão comum quanto resumirmos a vida de outra pessoa e achar que ela não pode querer mais. (...)
(...) Imaginei a garota acusando o golpe e confessando: sim, quero mais.
Quero não ter condescendência com tédio, não ser forçada a aceitá-lo na minha rotina como um inquilino inevitável. A cada manhã, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela aconteça ou não.
Expectativa por si só, já é um entusiamo.
Quero que o fato de ter uma vida prática e sensata não me roube o direito ao desatino.
Que eu nunca aceite a idéia de qe a maturidade exige um certo conformismo.
Que eu não tenha medo nem vergonha de ainda desejar.
(...) Quero ventilação, não morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigações e em exigências de ser a melhor mãe do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor qualquer coisa.
Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis.
Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor. Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros, sobre suas escolhas, sobre as coisas que dão errado e também sobre as que dão certo. Me permitir ser um pouco insignificante.
E, na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibildades de existir.
O que eu quero mais?
Me escutar e obedecer meu lado mais transgressor, menos comportadinho menos réfem de reuniões familiares, marido, filhos, bolos de aniversário e despertadores na segunda-feira de manhã.
E também quero mais tempo livre.
E mais abraços.
Pois é, ninguém está satisfeito. Ainda bem.
Martha Medeiros (Livros Doidas e Santas)
Bons sonhos!





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